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Saúde é Mais Cultura: o que a roda na Casa Sinestésica ensina sobre cuidado e território

A partir da roda de 20/07 na Casa Sinestésica, um editorial em defesa do programa Saúde é Mais Cultura — com Dóris Santana, Beatriz (Eco Paz) e Nésio Fernandes.

Em 20 de julho de 2026, a Casa Sinestésica, em Guarapari, reuniu uma roda de conversa sobre saúde e cultura. O encontro não foi um evento isolado: nasceu da necessidade de discutir, no território, a implementação do programa Saúde é Mais Cultura — uma política que aproxima cuidado, arte e vida cotidiana e interessa tanto a quem trabalha com cultura quanto à população em geral.

Na mediação, Dóris Santana. Na mesa, Beatriz, da Eco Paz, e o médico sanitarista Nésio Fernandes. Da plateia vieram relatos de formação, território, escola e cuidado. O que se ouviu ali reforça uma tese simples e urgente: saúde sem cultura fica incompleta; cultura sem cuidado vira luxo. Saúde é Mais Cultura é o nome de uma ponte que o Brasil já sabe construir — e que precisa chegar com orçamento, equipe e presença nos bairros.

Arte que faz corpo, não só discurso

Dóris Santana lembrou que música e teatro não são enfeite da política pública: são vias de encontro. Musicoterapeuta e artista, ela descreveu a arte como um “entre dois” — lugar de fazer corpo, não apenas de produzir técnica ou teoria. No cotidiano, prevalece a lei do menor esforço; na arte, enfrentamos a dificuldade e, ao superá-la, produzimos saúde.

Esse ponto importa para o Saúde é Mais Cultura porque o programa só faz sentido se reconhecer a arte como prática de presença, e não como entretenimento residual. Quando o corpo entra em cena — no teatro físico, no coral, na dança —, a saúde deixa de ser só diagnóstico e passa a ser experiência compartilhada.

Presença, pertencimento e nutrição cultural

Beatriz trouxe a Eco Paz — acolhimento a mulheres em situação de violência em Guarapari — e deslocou a conversa para o que a psicologia chama de aqui e agora. Citando a sociedade do cansaço, lembrou que vivemos na dispersão e na exigência permanente de desempenho. A arte pede contemplação e presença; fortalece, ao mesmo tempo, pertencimento coletivo e subjetividade singular.

Há, disse ela, uma nutrição que não se esgota em água, comida e exercício: a nutrição cultural. Ouvimos boa música? Lemos? Vemos o que nos alimenta? A OMS define saúde como bem-estar físico, social e psicológico — não apenas ausência de doença. Saúde é Mais Cultura responde a essa definição com política: garantir acesso a experiências que integrem corpo, mente e território.

O sensorial que sustenta a vida

Nésio Fernandes partiu da própria escuta. Ao colocar a prótese auditiva, descobriu a chuva e os passarinhos — e com eles a dimensão sensorial da existência. A medicina controla hipertensão, diagnostica e medica; isso importa. Mas a química não resolve sozinha o envelhecimento, a dependência de cuidado, o isolamento. O que reconecta uma pessoa à vida, muitas vezes, é música, luz, toque, dança, convívio.

Da Reforma Psiquiátrica e da luta antimanicomial veio a lição: não basta medicalizar e separar. É preciso função social, grupos, coral, teatro, economia criativa. O SUS já mostrou que pode contratar arte-educadores e artistas para o cuidado; que pode conversar com educação, território e participação. Saúde é Mais Cultura é a formulação contemporânea dessa ponte — e exige decisão orçamentária, não apenas boas intenções.

Trabalho cultural e cuidado no território

Nas considerações finais, Beatriz e Nésio convergiram em outro ponto decisivo: cultura é direito e também é trabalho. Pode haver entrega e vocação, mas quem produz cultura precisa viver com dignidade. Editais magros e precarização não sustentam política pública de longevidade.

Nésio lembrou a retomada do financiamento das equipes multiprofissionais na Atenção Primária e o lugar possível do arte-educador nas eMulti. Falou de neurodivergência, de famílias que atravessam a cidade em busca de cuidado, de escolas e de territórios onde a política ainda não chegou. Se é possível oferecer saúde e cultura até em contextos extremos, por que não garantir isso de perto — na escola, no bairro, na Casa?

Por que defender o Saúde é Mais Cultura

A roda deixou um mapa claro. Defender o programa é defender, na prática:

  • Arte e cultura como parte do cuidado, não como apêndice decorativo

  • Presença e pertencimento contra a dispersão e a exaustão da performance permanente

  • Nutrição cultural como dimensão real de saúde, no sentido da OMS

  • SUS e políticas culturais em diálogo — com arte-educadores, território e orçamento

  • Trabalho cultural remunerado com dignidade, para quem cuida e para quem cria

  • Cuidado próximo às famílias e às escolas, em vez de percursos inviáveis até centros distantes

Na Casa Sinestésica, essa defesa não é abstrata: é o chão da programação, das rodas, dos pontos e pontões de cultura, do encontro entre artistas, trabalhadoras e trabalhadores da cultura, profissionais de saúde e comunidade. A conversa precisa virar ação — e o Saúde é Mais Cultura é uma das ferramentas para isso.

Que Guarapari e o Espírito Santo tratem o programa como prioridade de implementação. Que o poder público ouça o território. E que a cultura continue sendo, como se disse na roda, via de mão dupla: lugar de fazer corpo, cuidar e viver junto.

Crédito

Texto editorial a partir da roda de conversa Saúde e Cultura realizada em 20 de julho de 2026 na Casa Sinestésica (Guarapari/ES), com mediação de Dóris Santana e participação de Beatriz (Eco Paz), Nésio Fernandes e intervenções da plateia.