Ir para o conteúdo principal

Memórias do tambor: o Congo em Guarapari — livro digital

Thiara Bernardo Dutra registra bandas, festas do mastro e memórias do Congo em Guarapari. PDF gratuito do projeto Tambores do Amanhã, pela Casa Sinestésica.

Capa do livro Memórias do tambor: o Congo em Guarapari — Thiara Bernardo Dutra

A Casa Sinestésica publica Memórias do tambor: o Congo em Guarapari, de Thiara Bernardo Dutra. O livro reúne pesquisa de campo, relatos de mestres e congueiros e o registro de bandas atuantes, em resgate e adormecidas no município — um capítulo pouco contado da cultura popular capixaba.

Baixar o livro (PDF gratuito)

Um livro que bate tambor no mato

Os avós do mestre Biduca, de Alto Rio Clarinho, tinham um código para avisar que iam para o mato bater tambor: a palavra reforço. Iam “escondido pro pessoal não ver”, de acordo com a memória de seu neto. Quando se lê isso, entende-se a encrenca que a historiadora Thiara Bernardo Dutra comprou em Memórias do tambor: o Congo em Guarapari. O livro conta a história de uma tradição que por muito tempo precisou se esconder e quase não deixou registro escrito.

O livro sai em PDF gratuito pela Associação Cultural Sinestesia Criatividade Coletiva. Nasceu do projeto Tambores do Amanhã, idealizado pelo educador musical e mestre de cultura popular Wesley Jhoni e aprovado no Edital Patrimônio Vivo de 2023 da Secult-ES, com recursos da Lei Paulo Gustavo. Enquanto as oficinas do projeto passavam o tambor a crianças e adolescentes do Coroado, a pesquisa registrava o que os mais velhos lembram.

Conflito de interesse declarado: a Banda de Congo de São Benedito da Praia do Morro, do mestre Wesley, tem sede aqui na Casa Sinestésica, e o presidente da associação, Bruno de Deus Magnago, toca nela e é um dos entrevistados do livro. Dito isso, sigamos.

A autora partiu de quase nada em papel: um inventário do IPHAN de 2015, uma dissertação que trata do Congo de passagem e reportagens de jornal. Então foi ouvir quem faz. Entrevistou quinze pessoas, entre mestres, artesão, porta-estandarte e congueiros. A história oral é o método certo quando a fonte anda, canta e às vezes discorda da pesquisadora.

Em cinco capítulos, o livro identifica as treze bandas do município, reconstitui sua história, localiza cada uma no mapa, descreve como funcionam (devoção, instrumentos, roupas, dança, papel do mestre e das mulheres, toadas) e trata da preservação.

Thiara é doutora em História pela UFES e pesquisa o Espírito Santo colonial, e o capítulo histórico é onde isso mais aparece. Ele volta às fazendas do Campo e Engenho Velho, onde viviam mais de quatrocentas pessoas escravizadas e onde, entre 1812 e 1814, houve uma série de levantes; autoridades e viajantes chamaram o lugar de República Negra. Ninguém tem o registro do primeiro tambor batido nessas serras, e o livro não finge ter. Levanta hipóteses e deixa o mestre Duca contar a versão que ouviu: os escravizados de Mucambo conversavam com os de Araçatiba pelo tambor.

Um dos méritos do livro é reunir versões que nem sempre coincidem, e a autora deixa que elas convivam. Mestre Tião, do Trevo, diz que o Congo é dos índios, fala da avó indígena, do pai africano e da bisavó italiana, e se corrige no meio da frase: “Misturado não. Compartilharam.” Mestre Duca vê no Congo sobretudo diversão e encontro das famílias; a porta-bandeira Girassol vê devoção: “é São Benedito que abre o caminho”. Wesley resume: nunca se vai saber exatamente a origem, mas dá para saber quais elementos formaram essa cultura.

E o livro tem cenas de sobra. Mestre Tião levando três ônibus lotados para a festa em Alto Rio Calçado, lugar que, segundo ele, tem três casas e no dia do Congo vira cidade. Dona Tacinha, em Perocão, assistindo às oficinas de congo mirim da laje do prédio, sem descer da cadeirinha. A toada da rolinha, inventada por gente a caminho da roça: “Ô rolinha, onde é seu ninho? / Que eu moro na mata, perto do caminho.”

O capítulo sobre preservação tira o sorriso da cara. As treze bandas de hoje, contra as seis que o IPHAN contou em 2015, vivem quase sem política pública. A maior dificuldade que elas apontam é concreta: falta transporte para ir à festa das outras. Wesley propõe um agente de cultura territorial, que circule pelas comunidades como um agente de saúde, e critica o modelo que obriga as bandas a disputar a própria tradição em edital todo ano. Para ele, os editais compram instrumentos e pagam oficinas, mas não substituem um apoio permanente. Este livro foi pago por um edital desses e publica a crítica, o que só aumenta a confiança nele.

O livro é curto, e a própria autora avisa que ainda há muito para contar; o capítulo final propõe um inventário participativo das bandas. Para quem quer conhecer o Congo de Guarapari, é por aqui que se começa. Vale ler as toadas em voz alta. O livro abre com Guilherme Santos Neves dizendo que tradição é o passado vivo no presente e mostra que, em Guarapari, esse passado tem endereço: Alto Rio Calçado, Rio Claro, Mucambo, Alto Rio Clarinho, Alto Iguape, Trevo, Praia do Morro, Perocão.

Resenha da Casa Sinestésica.

O que você encontra no livro

  • Identificação das bandas de Congo de Guarapari (ABCG, fora da associação, em resgate e adormecidas)

  • Referências históricas e memórias orais de comunidades como Alto Rio Calçado, Rio Claro, Mucambo, Trevo e Perocão

  • Mapa de localização, festas do mastro, instrumentos e a relação com o jongo

  • Notas sobre preservação patrimonial e os desafios de continuidade da tradição

Ler e baixar

A edição digital (PDF, 65 páginas, formato A5) está disponível para download gratuito: baixar Memórias do tambor (PDF).

A edição traz capa, ficha catalográfica e créditos institucionais da Casa. O ISBN fica sob demanda; o miolo de pesquisa é o texto de Thiara Bernardo Dutra.

Ficha

  • Título: Memórias do tambor: o Congo em Guarapari

  • Autoria: Thiara Bernardo Dutra

  • Realização: Associação Cultural Sinestesia Criatividade Coletiva

  • Projeto: Tambores do Amanhã

  • Apoio: Secult-ES / Lei Paulo Gustavo — Edital Patrimônio Vivo

  • Formato: PDF A5 · 65 páginas · ilustrado

  • Ano do miolo: 2025 · Empacotamento digital: 2026

Baixar o livro (PDF gratuito)